“Esse é o nosso mundo”

por Lula Queiroga

Desde a primeira vez que vi e ouvi os Mamelungos no palco, tive a mesma impressão que muita gente deve ter tido e tem até hoje. Uma pancada sonora arrebatadora. Quatro caras de extrema musicalidade. Quatro ótimos músicos. Quatro puta cantores. E com vozes absolutamente diferentes entre si. Além do repertório próprio, autoral. Uma banda pronta, com carisma e fãs cativos.

“Esse é o nosso mundo”, é o segundo disco desses meninos inquietos. Boto o pendrive. Aumento o volume. Mamelungos inunda a sala. Vou percebendo já de cara o som maduro, encorpado. Os meninos cresceram. Estão fazendo uma música aberta, global. Contendo um ingrediente indispensável e tão pouco usual na música que se faz atualmente: desenho melódico. E é muito bom quando esse desenho é criativo, cheio de diversidade e caminhos. É o caso.

“Esse é o nosso mundo” é um desfile de boas surpresas.

O disco abre com uma espécie de marchinha/ukulelê/irlandesa – “La Lune” – melodia mântrica, que depois ganha levada de quase baião e dissolve com vocais solares. Com direito à sanfona e ao talento de Marcelo Jeneci. Avança com “Coisa melhor” um frevo ska meio iê iê iê. Letra sacana, sabor Novos Baianos. Metais com sotaque pernambucano guiados pelo maestro Parrot. Passamos para um reggae híbrido em “Tudo que eu fiz”, dançante e pop, metais sofisticados arranjados pelo mestre maestro Nilsinho Amarante.

Ponho o fone no ouvido. Rola uma inesperada surf music, com letra antirromântica – “Deixe de Gostar”. Uma porrada. Guitarra roncadora e potente. E fica cada vez mais claro que se trata de um grande painel de influências e musicalidades entrelaçadas. Um painel coletivo. Onde cada um do grupo deixa sua digital e a mistura soa homogênea. Som de banda. Que toca junto, que timbra. Em seguida a bela “Me mostra tua cor”, baixo gordo, modulações que caem redondas, base azeitada, metais dissonantes.

O disco corre todo assim: imprevisível e corajoso. Sem amarras, sem clichês. As canções vão se transformando diante dos nossos ouvidos. As vezes crescem, enchem o espaço sonoro e voltam pra célula musical inicial. Nunca caindo no óbvio maneirista. E vem “Xícaras cheias” (com Jeneci somando nos vocais), “Apneia”, “Gira só” um baião Radiohead que se torna furioso e selvagem em seu climax.

E “Solitude”, ótima balada em compasso seis por oito que por alguns momentos lembra algo da veia mineira de Beto Guedes. Ou Portishead. Ou progressivo dos setenta. Guitarras poderosas. Ou Milton Nascimento lisérgico. Sei lá. “Buenos Aires” é uma balada contida no início e rasga o peito depois, com cordas e coro Gospel/Champions League. O disco finda com “Varanda”, um pop divertidamente sinistro: “Nada de ar / Nenhuma árvore / Só os buracos das paredes / Habitados por formigas”. Carimbando com estilo essa obra grupal e repleta de referências.

Esse é o mundo de Luccas Maia, Thiago Hoover, Weré Lima e Peu Lima. Música na veia, som de pulso. Intenso na delicadeza e na pressão.

China, querido amigo, produziu com eles essa joinha. Gravado em Sampa e em recife e mixado pelos também craques Buguinha Dub e Yury Kalil (Cidadão Instigado).

E tá aí, “Esse é o Nosso Mundo”. Me fazendo feliz pelos ouvidos.

E quer saber? Acho que vou escutar mais uma vez. É do tipo de som que se quer ouvir mais.

PARABÉNS, QUARTETO FANTÁSTICO.

E a todos uma ótima viagem a bordo dessa nave sonora chamada Mamelungos.
O espaço sonoro ocupado por timbres.

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